segunda-feira, 29 de junho de 2026

Romanização da Língua Coreana: Do Sistema McCune-Reischauer às Regras da RPDC

A escrita coreana ocupa um lugar singular entre os sistemas de escrita do mundo por sua organização lógica e pela capacidade de representar com precisão os sons da língua nacional. Entretanto, quando nomes de pessoas, localidades e instituições coreanas precisam ser registrados em caracteres latinos, torna-se necessário recorrer à romanização. Ao longo da história, diferentes sistemas foram desenvolvidos para esse propósito, refletindo concepções distintas sobre a melhor forma de representar o idioma coreano para leitores estrangeiros.

O sistema de romanização mais conhecido durante grande parte do século XX foi o McCune-Reischauer, elaborado em 1937 pelos estudiosos estadunidenses George M. McCune e Edwin O. Reischauer. Seu objetivo era criar um método capaz de aproximar a pronúncia coreana por meio do alfabeto latino, tornando-a compreensível para o público ocidental. Durante décadas, esse sistema foi amplamente empregado em estudos acadêmicos, mapas, enciclopédias e publicações internacionais sobre a Coreia.

George M. McCune possuía uma relação particularmente próxima com a Coreia. Filho de missionários presbiterianos estadunidenses, nasceu e cresceu em Pyongyang, onde aprendeu a falar coreano fluentemente desde a infância. Posteriormente tornou-se professor e respeitado pesquisador da história coreana na Universidade da Califórnia em Berkeley. Sua vivência na península contribuiu para que o sistema McCune-Reischauer buscasse reproduzir com fidelidade muitos aspectos da pronúncia coreana.

Seu colaborador, Edwin O. Reischauer, também nasceu no Leste Asiático, sendo filho de missionários estadunidenses estabelecidos em Tóquio. Tornou-se um dos maiores especialistas ocidentais em história japonesa, lecionou durante muitos anos na Universidade Harvard e exerceu posteriormente a função de embaixador dos Estados Unidos no Japão. Reischauer também manifestava profunda admiração pelo coreano, chegando a afirmar que o alfabeto coreano talvez fosse o sistema de escrita mais científico em uso geral no mundo.

Embora o sistema McCune-Reischauer representasse um importante avanço para sua época, sua elaboração tinha como principal público os leitores ocidentais. Assim, muitas de suas escolhas procuravam adaptar a representação dos sons coreanos às convenções de leitura mais familiares aos falantes de língua inglesa. Em consequência, diversos nomes coreanos passaram a ser internacionalmente conhecidos por grafias moldadas segundo hábitos de pronúncia do inglês, ainda que essas formas nem sempre refletissem da maneira mais direta a percepção fonética dos próprios coreanos.

Esse aspecto pode ser observado em diversos sobrenomes e nomes geográficos. O sobrenome 박 difundiu-se internacionalmente como Park, enquanto 리/이 tornou-se amplamente conhecido como Lee. O sistema também empregava sinais como ŏ e ŭ para indicar determinados sons que não possuem equivalentes diretos em inglês. Embora essas soluções fossem úteis para estudiosos estrangeiros, elas acabaram consolidando grafias que, muitas vezes, eram interpretadas segundo a pronúncia inglesa e não segundo a fonética própria da língua coreana.

Durante várias décadas, a RPDC utilizou uma variante baseada no sistema McCune-Reischauer, introduzindo pequenas adaptações compatíveis com suas necessidades de padronização. A experiência acumulada nesse período permitiu desenvolver uma compreensão mais ampla das vantagens e limitações desse método, servindo posteriormente como base para a elaboração de um sistema nacional de romanização.

Em 1992, a Academia de Ciências Sociais da RPDC adotou oficialmente as Regras de Transcrição em Alfabeto Latino da Língua Coreana. Esse sistema recebeu posteriormente aperfeiçoamentos em 2002 e 2012, preservando os princípios fundamentais definidos em sua criação. Entre eles destacam-se a busca pela representação mais próxima possível da pronúncia da língua coreana, a simplificação de determinadas variações para aumentar a praticidade do sistema, o respeito à tradição histórica da romanização e a manutenção de regras estáveis ao longo do tempo.

Segundo o próprio documento oficial da RPDC, um dos objetivos da romanização é utilizar letras latinas que representem da forma mais fiel possível os sons da língua coreana, levando plenamente em consideração suas características fonéticas. O documento também observa que as primeiras tentativas de romanização foram realizadas por estrangeiros e naturalmente refletiam sua percepção dos sons do coreano. Por essa razão, o sistema nacional procura aproximar a transcrição da realidade fonética do idioma, preservando ao mesmo tempo a continuidade histórica das formas já difundidas internacionalmente.

Enquanto a RPDC desenvolveu um sistema próprio de romanização, a República da Coreia adotou oficialmente, em 2000, a chamada Romanização Revisada da Coreia. O novo método eliminou os sinais diacríticos presentes no McCune-Reischauer com o objetivo de facilitar sua utilização em computadores, bancos de dados e na internet. Essa mudança também produziu diversas alterações na grafia tradicionalmente conhecida de inúmeros nomes coreanos.

As diferenças entre os sistemas tornam-se evidentes em exemplos bastante conhecidos. O nome histórico da Coreia, 조선, é romanizado como Joson na RPDC e Joseon na RC. O sobrenome 리 aparece como Ri/이 no Norte, enquanto no Sul predominam Lee e, em alguns casos, Yi. O sobrenome 박 é escrito Pak na romanização norte-coreana, mas Park continua sendo a forma mais difundida na tradição sul-coreana e internacional.

Outros exemplos ilustram claramente essas diferenças. A montanha 금강산 é romanizada como Kumgangsan na RPDC e Geumgangsan na RC. A cidade de 개성 aparece como Kaesong no Norte e Gaeseong no Sul. A cidade 청진 é Chongjin na romanização norte-coreana e Cheongjin na sul-coreana. A cidade 함흥 torna-se Hamhung no sistema da RPDC e Hamheung na Romanização Revisada. Até mesmo nomes amplamente conhecidos apresentam diferenças, como Phanmunjom e Panmunjeom para 판문점.

Em alguns casos, determinadas grafias permaneceram praticamente inalteradas por força do uso internacional consolidado. A capital da RPDC continua amplamente conhecida como Pyongyang, em ambos os lados da Península, embora eventualmente apareça Phyongyang ou Pyeongyang. Por outro lado, Seoul é utilizado também no norte, embora, segundo suas regras fosse "Soul". Isso demonstra que a romanização não depende apenas de critérios fonéticos, mas também considera a tradição construída ao longo de décadas de utilização em mapas, documentos e publicações internacionais.

As diferenças entre os sistemas de romanização não significam que haja idiomas distintos na península coreana, ainda que existam variações consideráveis. O que muda é o conjunto de critérios utilizados para representar essa escrita em caracteres latinos. Enquanto alguns sistemas foram concebidos principalmente para facilitar a leitura por estrangeiros, a romanização oficial da RPDC procura partir das próprias características fonéticas da língua coreana, preservando de forma mais direta sua identidade linguística.

A evolução da romanização da língua coreana acompanha importantes processos históricos vividos pela nação. Desde o sistema McCune-Reischauer até o desenvolvimento das regras nacionais adotadas pela RPDC e a posterior Romanização Revisada implementada na RC, cada método reflete diferentes prioridades e concepções linguísticas. Mais do que simples diferenças de grafia, esses sistemas revelam distintas formas de compreender como a língua coreana deve ser apresentada ao mundo, evidenciando a importância de preservar sua pronúncia, sua tradição e sua identidade nacional.

Lenan Menezes da Cunha 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ai, Orini e Sonyon

Para quem estuda o coreano, é comum encontrar as palavras 아이, 어린이 e 소년 traduzidas de maneira semelhante. No entanto, uma análise mais cuidadosa mostra que esses termos possuem campos semânticos distintos e refletem diferentes maneiras de compreender a infância e a juventude. Compreender essas diferenças ajuda não apenas na leitura de textos, mas também na interpretação de discursos, obras literárias e publicações.

Entre os três termos, 아이 é o mais básico e coloquial. Ele se refere simplesmente a uma criança, isto é, a uma pessoa que ainda não alcançou a maturidade. É uma palavra de origem nativa coreana, amplamente utilizada na fala cotidiana para designar filhos, crianças pequenas ou jovens em geral. Seu significado fundamental é descritivo e não carrega, por si só, uma carga ideológica ou institucional específica.

Além disso, 아이 frequentemente aparece em contextos familiares e afetivos. Quando pais falam de seus filhos como 우리 아이, a expressão enfatiza o vínculo emocional entre a criança e a família. Nesse uso, a palavra pode até ultrapassar limites estritamente etários, permanecendo aplicável a filhos já adultos quando o foco está na relação familiar e não na idade.

A palavra 어린이 ocupa uma posição diferente. Ela está fortemente associada ao movimento educacional e cultural liderado por Pang Jong Hwan no início do século XX. Seu objetivo era promover uma visão mais respeitosa da infância, apresentando as crianças como indivíduos dotados de dignidade própria. Essa origem histórica é importante para compreender por que 어린이 adquiriu um tom mais formal e institucional.

Entretanto, ao analisar textos da RPDC, percebe-se que 어린이 nem sempre ocupa o mesmo espaço central que possui no Sul. Embora continue sendo uma palavra perfeitamente compreensível e utilizada em determinados contextos, a linguagem norte-coreana frequentemente privilegia termos ligados à organização social, à educação coletiva e às categorias etárias definidas pelo sistema educacional e pelas organizações juvenis.

É nesse contexto que 소년 (소: pequeno 년: idade, anos) adquire uma relevância particular. Diferentemente de 아이, que apenas descreve uma criança, e de 어린이 (어린: jovem, imaturo, 이: pessoa) , que enfatiza a infância como categoria social, 소년 remete ao jovem em processo de formação. Trata-se de um vocábulo sino-coreano cuja história está ligada à ideia de juventude, desenvolvimento e preparação para responsabilidades futuras.

Na RPDC, o termo aparece com frequência em nomes de organizações, publicações, atividades culturais e instituições voltadas para a formação da nova geração. Expressões como 소년단 (União das Crianças) são especialmente importantes, pois associam a juventude ao processo de educação ideológica, disciplina coletiva e participação na construção da sociedade. 

Do ponto de vista semântico, 소년 descreve alguém que já ultrapassou a primeira infância e se encontra numa etapa intermediária entre a criança pequena e o jovem adulto. O foco não está na dependência característica da infância, mas no potencial de crescimento, aprendizado e desenvolvimento. Por essa razão, a palavra frequentemente evoca uma imagem mais ativa do que 아이.

Essa diferença torna-se evidente quando observamos os contextos em que cada termo aparece. Um bebê ou uma criança muito pequena será naturalmente chamado de 아이. Já um estudante envolvido em atividades escolares, esportivas ou organizacionais pode ser descrito como 소년, especialmente quando se deseja destacar sua condição de membro da nova geração em formação.

Em termos conceituais, pode-se dizer que 아이 enfatiza a condição natural da criança, 어린이 enfatiza a criança como pessoa merecedora de atenção e proteção, enquanto 소년 enfatiza o jovem como sujeito em processo de formação social. As três palavras podem referir-se a indivíduos de idades semelhantes, mas o ponto de vista adotado em cada caso é diferente.

Essa distinção é particularmente útil para leitores de materiais norte-coreanos. Em muitos textos da RPDC, o interesse principal não é descrever a infância como uma fase de fragilidade ou dependência, mas destacar o papel das novas gerações no desenvolvimento da sociedade. Nesses casos, palavras como 소년 frequentemente carregam nuances que vão além da simples referência à idade.

Assim, compreender a diferença entre 아이, 어린이 e 소년 permite perceber aspectos mais profundos da linguagem coreana. No contexto da RPDC, essa distinção torna-se ainda mais relevante, pois revela como diferentes termos podem refletir não apenas categorias etárias, mas também diferentes concepções sobre educação, crescimento e o lugar da juventude na sociedade.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 그루지야, 리뜨바, 라뜨비야, 에스또니야 e 몰도바

Os nomes de países em coreano (조선어) não sofrem influência apenas do hanja ou do inglês, mas também do russo.

É verdade que muitos nomes baseados no chinês deram lugar a formas inspiradas no inglês ou na pronúncia nativa do país em questão. No entanto, no caso de alguns países da antiga URSS, o padrão adotado foi o russo.

Antes de prosseguir, vale destacar que Rússia é “Rossiya” (로씨야), baseado no russo “Rossiya” (Россия), enquanto, na República da Coreia, utiliza-se “Rosia” (러시아), forma baseada no inglês “Russia”.

A seguir, os casos de Geórgia, Lituânia, Letônia, Estônia e Moldávia:

Geórgia — Kurujiya (그루지야)
A Geórgia é grafada como “Kurujiya”, com base no russo “Gruziya” (Грузия), em vez do georgiano “Sakartvelo” (საქართველო). Caso se baseasse na língua nativa, seria algo como “Sakharuthubelo” (사카르트벨로). Na República da Coreia, utiliza-se “Jojia” (조지아), baseado no inglês “Georgia”.

Lituânia — Rittuba (리뜨바)
A Lituânia é grafada como “Rittuba”, com base no russo “Litva” (Литва), em vez do lituano “Lietuva”. Caso se baseasse na língua nativa, seria algo como “Riethuba” (리에투바). Na República da Coreia, utiliza-se “Rithuania” (리투아니아), do inglês “Lithuania”.

Letônia — Rattubiya (라뜨비야)
A Letônia é grafada como “Rattubiya”, com base no russo “Latviya” (Латвия), em vez do letão “Latvija”, embora a escrita e a pronúncia das duas línguas sejam semelhantes. Uma forma mais próxima do letão seria “Rathubiya” (라뜨비야). Na República da Coreia, utiliza-se “Rathubia” (라트비아), baseada no inglês “Latvia”.

Estônia — Esuttoniya (에스또니야)
A Estônia é grafada como “Esuttoniya”, com base no russo “Estoniya” (Эстония), em vez do estoniano “Eesti”. Caso se baseasse na língua nativa, seriam possíveis formas como “Esuthi” (에스티) ou “Esutti” (에스띠); pelo padrão nortenho, provavelmente a segunda. Na República da Coreia, utiliza-se “Esuthonia” (에스토니아), derivada do inglês “Estonia”.

Moldávia — Moldoba (몰도바)
A Moldávia é grafada como “Moldoba”, possivelmente com base tanto no russo (Молдова) quanto no romeno (ou moldavo) “Moldova”, cujas pronúncias são muito semelhantes. Nesse caso, não é possível afirmar com certeza se a forma deriva diretamente do russo. Na República da Coreia, utiliza-se “Moldabia” (몰다비아), baseada no inglês “Moldavia”.

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 이태리 e 이딸리아


Trata-se de mais um caso de nome de país europeu baseado no hanja que foi modificado, em meados da década de 1960, para uma forma que imita a pronúncia nativa.

Inicialmente, utilizava-se “Itaeri”, derivado do hanja “Yītàilì” (伊太利). No entanto, já na década de 1960, adotou-se a forma atual “Ittalia” (이딸리아), baseada na pronúncia italiana de “Italia”. Por outro lado, na República da Coreia, utiliza-se “Ithalia” (이탈리아), também como uma tentativa de imitação da pronúncia nativa, já que, se fosse baseada no inglês “Italy”, a forma seria “Itholi” (이털리).

Esse caso serve como um bom exemplo das diferenças de interpretação da pronúncia de línguas estrangeiras entre o Norte e o Sul. “Ittalia” (이딸리아) apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965.


Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 서서 e 스위스

Trata-se de mais uma mudança no nome de um país europeu, ocorrida em meados da década de 1960, com o abandono de uma forma derivada do chinês em favor de um nome baseado na pronúncia inglesa.

Inicialmente, utilizava-se “Soso” (서서), derivado do hanja (瑞西), com influência da forma japonesa (Suwisu), em vez da chinesa (Ruì xī). No entanto, em meados da década de 1960, adotou-se “Suwisu” (스위스), que também é utilizado na República da Coreia e se baseia no inglês “Swiss” (e não “Switzerland”, que significa literalmente “terra dos suíços”). Caso se optasse por imitar a pronúncia alemã, a forma seria “Syubaicheu” (슈바이츠), baseada em “Schweiz”, pronunciado “Shvaits”. “Suwisu” apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965.

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 서반아 e 에스빠냐

Assim como no caso de Portugal, o nome para a Espanha na RPDC foi modificado, em meados da década de 1960, de um termo de origem chinesa para uma forma que imita a pronúncia nativa.

Inicialmente, utilizava-se “Sobana” (서반아), derivado do hanja “Xībānyá” (西班牙), mas o nome foi posteriormente alterado para “Esuppanya” (에스빠냐), com base na pronúncia espanhola de “España”. “Esuppanya” apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965. Na República da Coreia, utiliza-se “Supein” (스페인), forma baseada no inglês “Spain”.


 

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 포도아 e 뽀르뚜갈

Trata-se de um caso interessante de abandono de um nome baseado no hanja em favor de uma adaptação do nome na língua nativa, ocorrido em meados da década de 1960.

Inicialmente, utilizava-se “Podoa-a” (포도아), derivado do hanja “Pútáoyá” (葡萄牙). Posteriormente, porém, adotou-se “Pporuttugal” (뽀르뚜갈), com base no nome “Portugal” na língua portuguesa. Trata-se também de um exemplo do uso característico de consoantes duplas (쌍자음) na RPDC. Na República da Coreia, utiliza-se “Porutugal” (포르투갈), que, embora soe semelhante ao português, baseia-se na pronúncia inglesa. “Pporuttugal” foi utilizado pela primeira vez no Anuário Central de 1965.


 

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 불란서 e 프랑스

Esse é um caso interessante de mudança no nome de um país europeu, passando de uma forma derivada do hanja para outra baseada no idioma original, ocorrida já na década de 1960.

Inicialmente, utilizava-se 불란서 (Pullanso), derivado do hanja “Fú lán xī” (佛蘭西). No entanto, já em meados da década de 1960, a RPDC adotou “Purangsu” (프랑스), baseado no francês “France”, que também é utilizado na República da Coreia. “Purangsu” foi utilizado pela primeira vez no Anuário Central em 1965.

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 오지리 e 오스트리아

Trata-se de mais uma mudança no nome de um país europeu, passando de uma forma baseada no hanja para uma versão inspirada no inglês. Inicialmente, utilizava-se “Ojiri” (오지리), derivado do hanja "Ào dìlì" (墺地利).

No entanto, durante o processo de modernização dos nomes — que envolveu a eliminação de substantivos próprios baseados no hanja, considerados desnecessários —, adotou-se, no final da década de 1990, a forma “Osuturia” (오스트리아), a mesma utilizada na República da Coreia. Esse nome apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1999. Caso optasse por imitar a pronúncia original do país, poderia ser "Oesteraihi" (외스테라이히), do alemão "Österreich".

domingo, 22 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 웽그리아 e 마쟈르

Esse é mais um caso de mudança significativa no nome de um país. Até meados da década de 1990, na República Popular Democrática da Coreia utilizava-se 웽그리아 (Wengguria), derivado do russo Венгрия (Vengriya), enquanto na República da Coreia usava-se — e ainda se usa — 헝가리 (Honggari), derivado do inglês Hungary. Trata-se de um exemplo clássico da influência soviética na nomenclatura de países que integraram o bloco socialista.

No final da década de 1990, passou a ser introduzido o termo 마쟈르 (Magyaru), inspirado no nome do país em húngaro (Magyarország, “Terra dos Magiares”). O Anuário Central da RPDC registrou o uso de Magyaru pela primeira vez na edição de 1999.


sábado, 21 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 희랍 e 그리스

A mudança no nome da Grécia é mais um dos casos de substituição de um substantivo de origem chinesa por uma versão baseada no inglês, e não na língua original do país em questão.

Desde a fundação da República Popular Democrática da Coreia até a década de 1990, utilizava-se 희랍 (Huilab), uma adaptação da pronúncia chinesa “Xīlà” (希臘), baseada na transliteração.

A mudança para o atual “Kurisu”, também utilizado na República da Coreia, começou no final da década de 1990, tendo 그리스 aparecido pela primeira vez no Anuário Central publicado em 1999.

“Kurisu” baseia-se no inglês “Greece”, não adotando o nome da Grécia em grego (Ελλάς; Ellás) nem a pronúncia russa (Греция, Gretsiya).

Coincidentemente, já existia a palavra “그리스”, que significa graxa, gordura ou lubrificante.
 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 분란 e 핀란드

O caso da Finlândia é interessante porque a mudança do nome ocorreu em meados da década de 1960. Para ser mais preciso, oficialmente, o nome 핀란드 (Pinlandu) passou a ser utilizado em 1965, como se pode verificar no Anuário Central publicado naquele ano.

O nome anterior era 분란 (Punran), derivado do hanja "芬蘭" (Fēnlán, na pronúncia chinesa), que, assim como no caso da Austrália, poderia gerar confusão por coincidir na pronúncia com outra palavra de origem sino-coreana, 분란 (紛亂), que significa "desordem" ou "caos".

Porém, "Pinrandu", ao contrário do caso de outros países citados em publicações anteriores, não foi uma tentativa de imitar o nome do país em sua língua nativa, que seria Suomi. Nesse caso, nem mesmo a pronúncia russa — que teve grande influência nos nomes de países na Coreia socialista, algo que explicarei posteriormente — é semelhante, sendo "Finlyandiya" (Финляндия). Trata-se de um dos casos de abandono do hanja em favor de uma aproximação fonética do inglês (Finland).

 

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 독일 e 도이췰란드

Seguindo com a série de mudanças em substantivos próprios, temos o nome do país Alemanha, que passou por uma alteração significativa, gerando uma diferença clara entre o coreano dos dois lados da Península.

Inicialmente, utilizava-se 독일 (Tokil), palavra de origem sino-coreana (獨逸; Dúyì), presente na língua coreana há muito tempo. Contudo, chegou a existir na República da Coreia a forma 도이칠란트 (doichilandu) entre as décadas de 1970 e 1980, sendo usada com menor frequência em relação a 독일, então considerado o padrão para o nome do país europeu, mas que acabou se tornando obsoleta com o tempo.

Na República Popular Democrática da Coreia, a mudança ocorreu oficialmente no final da década de 1990, embora o termo já viesse sendo introduzido alguns anos antes. O anuário central utiliza 도이췰란드 (doichwilandu; do alemão Deutschland) pela primeira vez em 1999, mas há registros de materiais que já empregavam essa forma anteriormente, em meados da década de 1990. Foi também na transição de 1998 para 1999 que o nome 구라파 (Kurapa; transliteração do chinês e/ou do japonês 歐羅巴) foi oficialmente substituído por 유럽 (Yurop).

domingo, 15 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 호주 e 오스트랄리아

Como apontei na publicação anterior desta série sobre mudanças de substantivos próprios no vocabulário falado na República Popular Democrática da Coreia, houve mudanças significativas e graduais do início da década de 1990 até o começo dos anos 2000.

O caso dos nomes dos países é mais evidente. Embora a maioria não tenha mudado, as mudanças que ocorreram ficaram muito marcantes, principalmente na comparação com o coreano falado do outro lado da Península, que, ao mesmo tempo que mantém o hanja, possui muitas derivações da língua inglesa, imitando sua pronúncia, e não a pronúncia oficial do país em questão.

Escolhi a Austrália porque é um caso marcante. A diferença entre 호주 (Hoju) e 오스트랄리아 (Osuturalia) é muito grande. Além disso, foi um dos primeiros nomes de países a ser modificado na Coreia socialista.

No final da década de 1980, o substantivo "오스트랄리아" já era utilizado, consolidando-se na década de 1990. Mas há um motivo específico para isso. "Hoju" (호주), que vem do hanja "Háo zhōu" (濠洲), também pode significar "chefe de família" (do hanja 戶主) ou "amante do licor". Em especial, "chefe de família" é um vocabulário significativo na Coreia, aparecendo até os dias atuais em publicações oficiais norte-coreanas sobre temas relacionados. Isso, evidentemente, causa certa confusão. Imagine "호주의 호주" (chefe de família da Austrália)? Isso ainda é possível no sul, embora seja pouco comum.

O nome da Austrália não foi o único entre os derivados do hanja a ser modificado — mas falarei detalhadamente em outras publicações —, mas cabe destacar que Estados Unidos (미국), Japão (일본), Reino Unido (영국) e China (중국) permanecem intactos. O motivo para isso, resumidamente, parece estar relacionado ao peso histórico desses quatro países na história da Coreia, à semelhança de alguns deles com a pronúncia original (no idioma do país em questão) e também a questões de praticidade.

Em suma, "Osuturalia" é a pronúncia, no idioma coreano, semelhante a "Australia" do inglês, idioma do país da Oceania.

domingo, 8 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 회교 e 이슬람교

A palavra “islamismo” era chamada de forma diferente da atual 이슬람교 (i sulam gyo) até a década de 1990 na República Popular Democrática da Coreia.

Utilizava-se 회교 (hoegyo), uma palavra sino-coreana derivada do chinês 回教 (Huí jiào).

O último registro acessível em materiais norte-coreanos que utilizam a palavra 회교 data de fevereiro de 1992: 이란회교혁명승리 13돐에 즈음하여 연회 (Banquete comemorativo pelo 13º aniversário da vitória da Revolução Islâmica do Irã), artigo publicado pelo jornal Minju Joson.

Por exemplo, quando o ex-presidente — que posteriormente se tornaria Líder Supremo — do Irã, Ali Khamenei, visitou a RPDC em maio de 1989, as publicações norte-coreanas o anunciaram como 이란회교공화국 대통령 (Iran Hoegyo Gonghwaguk Detongnyong) — Presidente da República Islâmica do Irã.

Mas por qual razão a palavra hoegyo deixou de ser utilizada, dando lugar a isulamgyo?

Não há uma explicação oficial para essa mudança, mas existem algumas possíveis justificativas.

Pode-se considerar a hipótese de uma “modernização” terminológica da língua, já que Islam (inglês) e إسلام (árabe) tornaram-se amplamente difundidos em escala mundial. Entretanto, considerando que a RPDC nem sempre adota automaticamente tendências linguísticas internacionais, outra explicação parece mais plausível.

Ela está relacionada à própria origem histórica da palavra chinesa 回教 (Huí jiào).

Na realidade, esse termo se refere originalmente ao povo Hui da China, um grupo étnico majoritariamente muçulmano. Com o tempo, porém, passou a ser utilizado de forma generalizada para designar o islamismo como um todo, tanto na China quanto em outros países da região, por meio de suas variantes linguísticas.

Por essa razão, 회교 mostrou-se uma designação pouco precisa para a religião islâmica. Já 이슬람교, por aproximar-se da pronúncia árabe original, apresenta maior precisão e também se mostra mais compatível com uma postura linguística mais recente adotada pela Coreia socialista — a qual explicarei com mais detalhes em outras publicações — de valorizar a pronúncia original de substantivos próprios (고유명사).

domingo, 4 de janeiro de 2026

Palavras que só existem (ou só são usadas) na RPDC

A língua coreana utilizada na República Popular Democrática da Coreia (RPDC) apresenta características próprias que a diferenciam claramente do coreano em uso na República da Coreia (RC). Essas diferenças não são apenas linguísticas, mas profundamente políticas, históricas e ideológicas. Um dos aspectos mais marcantes é a existência de palavras que só existem ou só são amplamente usadas na RPDC.

Esses termos revelam um projeto consciente de construção linguística, ligado à soberania cultural, à rejeição da influência estrangeira e à afirmação de uma identidade socialista própria.

1. Substituição de palavras de origem estrangeira

Após a libertação do Japão em 1945 e, sobretudo, com a consolidação do Estado socialista, o Norte passou a promover ativamente a eliminação de palavras de origem estrangeira. Esse processo incidiu principalmente sobre empréstimos do japonês herdados do período colonial, termos de origem chinesa excessivamente eruditos e vocabulário técnico ocidental introduzido por meio do inglês ou do russo.

O objetivo era criar palavras baseadas em raízes coreanas nativas, compreensíveis para todo o povo.

Exemplos incluem o uso de 손전화 para designar telefone celular, em vez do termo sul-coreano 핸드폰, a criação do termo 얼음보숭이 para substituir 아이스크림 e o emprego de 승강기 para elevador, em vez de 엘리베이터. Além disso, shampoo é designado como 머리비누, literalmente “sabão para a cabeça”, em vez do empréstimo do inglês 샴푸.

2. Vocabulário político exclusivo da RPDC

A RPDC desenvolveu um vocabulário político próprio, inseparável de sua experiência histórica e ideológica. Muitas dessas palavras não têm equivalente direto no Sul ou, quando existem, possuem sentidos diferentes.

O termo 주체 vai além de “sujeito” ou “autonomia” e designa a ideia central da revolução coreana, segundo a qual o povo é dono da revolução e da construção do Estado. 자력갱생, traduzido como autoconfiança, expressa a linha de desenvolvimento independente, tanto no plano econômico quanto político. 선군 designa a política de prioridade militar e está diretamente ligada à realidade específica da RPDC.

Essas palavras não são apenas conceitos abstratos, mas categorias vivas do discurso cotidiano, da educação e da imprensa.

3. Purificação da língua e acessibilidade popular

A política linguística da RPDC parte do princípio de que a língua deve servir às massas populares. Por isso, busca reduzir termos excessivamente eruditos, evitar estrangeirismos desnecessários e privilegiar palavras cujo significado seja facilmente compreensível.

Nesse contexto, utiliza-se o termo 문화주택 para designar habitações planejadas segundo padrões socialistas. 인민반 refere-se à unidade básica de organização comunitária, inexistente fora do sistema social da RPDC. A preferência por 로동자 em vez de 근로자 enfatiza o trabalhador enquanto classe social, e não apenas como força de trabalho abstrata.

4. O que isso diz sobre o país

A existência desse vocabulário específico mostra que, na RPDC, a língua é tratada como parte da soberania nacional, funciona como instrumento de educação ideológica, reflete a rejeição consciente da dependência cultural estrangeira e reforça a identidade coletiva e socialista.

Diferentemente de uma evolução linguística espontânea, muitas dessas palavras resultam de decisões políticas deliberadas. Isso não significa artificialidade vazia, mas um esforço de alinhar linguagem, pensamento e realidade social.

Conclusão

As palavras exclusivas da RPDC não são simples curiosidades linguísticas. Elas expressam um projeto de nação que busca existir com voz própria, inclusive no plano da linguagem. Compreender esse vocabulário é compreender, em parte, a forma como o Estado e o povo da RPDC veem a si mesmos e o mundo.

Qual a diferença entre tongji e tongmu?

De forma geral, tongji (동지) e tongmu (동무) significam “camarada” em português. No entanto, existem nuances importantes que diferenciam esses termos.

Antes de explicar essa diferença, é necessário compreender por que essas palavras são utilizadas na República Popular Democrática da Coreia.

Elas expressam a essência do coletivismo e do socialismo. Os honoríficos, profundamente enraizados na tradição feudal coreana, são substituídos por termos que colocam as pessoas em condição de igualdade, independentemente da posição ou do cargo que ocupam.

“Camarada”, nesse contexto, refere-se a alguém que constrói a revolução junto com o sujeito, alguém que está do mesmo lado da trincheira.

Embora ainda se utilize “선생” (senhor) como honorífico em alguns casos — principalmente ao se dirigir a estrangeiros —, honoríficos como “씨” são considerados resquícios feudais e, portanto, evitados.

Mas, afinal, qual é a diferença entre tongji e tongmu?

Para elevar um substantivo associado a uma posição social, patente ou título, acrescenta-se tongji. O uso de tongji em vez de tongmu confere uma elevação simbólica ao nome ou ao cargo, em comparação com o uso isolado do nome ou do substantivo (título). Em termos hierárquicos, tongji é considerado de posição superior a tongmu.

Tongmu é usado para se referir a amigos ou subordinados, seja pelo nome ou pelo cargo, enquanto tongji é empregado para nomes ou títulos de superiores hierárquicos ou de pessoas mais velhas.

terça-feira, 22 de julho de 2025

"Com o Século" ou "No Transcurso do Século"

Normalmente, quando traduzo materiais norte-coreanos, levo em conta a forma como determinados termos são traduzidos oficialmente pelos próprios norte-coreanos. No entanto, às vezes é interessante comparar o original em coreano com outras versões, para ter uma ideia mais ampla, além de buscar o significado dos termos em dicionários da RPDC.

As traduções para diferentes idiomas, com as devidas adaptações feitas pela editora norte-coreana, também oferecem reflexões importantes para o leitor que consegue compreender ambas as línguas.

Um caso interessante é o das memórias do grande Líder camarada Kim Il Sung.

Em coreano, 세기와 더불어 (Segiwa doburo), em inglês "With the Century" e em espanhol "En el Transcurso del Siglo".

Não existe uma versão "oficial", ou seja, traduzida pelos norte-coreanos, para o idioma português. Porém, conheço uma versão para o português brasileiro, feita pela camarada Rosanita Campos. Nessa tradução, baseada na versão em espanhol, o título fica "No Transcurso do Século".

De maneira geral, todos esses títulos têm algo em comum, sem se afastarem muito do sentido original (em coreano). No entanto, na minha opinião, a versão mais precisa é a inglesa.

Segi (세기) significa "século" e a forma "와 더불어" quer dizer "junto com algo ou alguém", ou seja, "com algo ou alguém". Dessa forma, "Com o Século", tradução direta de "With the Century", parece ser a forma mais precisa de expressar o nome dado às memórias do líder fundador da República Popular Democrática da Coreia.

domingo, 20 de julho de 2025

Nomes parecidos


Não confundir!

Embora os nomes de ambos sejam transliterados como Choe Yong Gon, são escritos de forma diferente e, evidentemente, possuem pronúncias diferentes.

O primeiro Choe Yong Gon (1900-1976) é 최용건 (lê-se Che Yông Gon), uma destacada figura política e militar da história da RPDC.

O segundo Choe Yong Gon (1951-2015) é 최영건 (lê-se Che Yóng Gon). Ocupou vários cargos políticos importantes mas acabou traindo o partido, a pátria e o povo, manchando sua carreira e vida.

domingo, 18 de maio de 2025

Nome dos planetas

Os nomes dos planetas são iguais na República Popular Democrática da Coreia e na República da Coreia.

수성: Mercúrio

금성: Kumsong

지구: Terra

화성: Marte

목성: Júpiter

토성: Saturno

천왕성: Urano

해왕성: Netuno

명왕성: Plutão (planeta anão)

Na RPDC há muitas coisas nomeadas com nome de planeta. Temos a zona de Hwasong, o míssil balístico intercontinental Hwasong, a Fábrica de Tratores Kumsong, bairro Susong, etc.