sábado, 21 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 희랍 e 그리스

A mudança no nome da Grécia é mais um dos casos de substituição de um substantivo de origem chinesa por uma versão baseada no inglês, e não na língua original do país em questão.

Desde a fundação da República Popular Democrática da Coreia até a década de 1990, utilizava-se 희랍 (Huilab), uma adaptação da pronúncia chinesa “Xīlà” (希臘), baseada na transliteração.

A mudança para o atual “Kurisu”, também utilizado na República da Coreia, começou no final da década de 1990, tendo 그리스 aparecido pela primeira vez no Anuário Central publicado em 1999.

“Kurisu” baseia-se no inglês “Greece”, não adotando o nome da Grécia em grego (Ελλάς; Ellás) nem a pronúncia russa (Греция, Gretsiya).

Coincidentemente, já existia a palavra “그리스”, que significa graxa, gordura ou lubrificante.
 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 분란 e 핀란드

O caso da Finlândia é interessante porque a mudança do nome ocorreu em meados da década de 1960. Para ser mais preciso, oficialmente, o nome 핀란드 (Pinlandu) passou a ser utilizado em 1965, como se pode verificar no Anuário Central publicado naquele ano.

O nome anterior era 분란 (Punran), derivado do hanja "芬蘭" (Fēnlán, na pronúncia chinesa), que, assim como no caso da Austrália, poderia gerar confusão por coincidir na pronúncia com outra palavra de origem sino-coreana, 분란 (紛亂), que significa "desordem" ou "caos".

Porém, "Pinrandu", ao contrário do caso de outros países citados em publicações anteriores, não foi uma tentativa de imitar o nome do país em sua língua nativa, que seria Suomi. Nesse caso, nem mesmo a pronúncia russa — que teve grande influência nos nomes de países na Coreia socialista, algo que explicarei posteriormente — é semelhante, sendo "Finlyandiya" (Финляндия). Trata-se de um dos casos de abandono do hanja em favor de uma aproximação fonética do inglês (Finland).

 

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 독일 e 도이췰란드

Seguindo com a série de mudanças em substantivos próprios, temos o nome do país Alemanha, que passou por uma alteração significativa, gerando uma diferença clara entre o coreano dos dois lados da Península.

Inicialmente, utilizava-se 독일 (Tokil), palavra de origem sino-coreana (獨逸; Dúyì), presente na língua coreana há muito tempo. Contudo, chegou a existir na República da Coreia a forma 도이칠란트 (doichilandu) entre as décadas de 1970 e 1980, sendo usada com menor frequência em relação a 독일, então considerado o padrão para o nome do país europeu, mas que acabou se tornando obsoleta com o tempo.

Na República Popular Democrática da Coreia, a mudança ocorreu oficialmente no final da década de 1990, embora o termo já viesse sendo introduzido alguns anos antes. O anuário central utiliza 도이췰란드 (doichwilandu; do alemão Deutschland) pela primeira vez em 1999, mas há registros de materiais que já empregavam essa forma anteriormente, em meados da década de 1990. Foi também na transição de 1998 para 1999 que o nome 구라파 (Kurapa; transliteração do chinês e/ou do japonês 歐羅巴) foi oficialmente substituído por 유럽 (Yurop).

domingo, 15 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 호주 e 오스트랄리아

Como apontei na publicação anterior desta série sobre mudanças de substantivos próprios no vocabulário falado na República Popular Democrática da Coreia, houve mudanças significativas e graduais do início da década de 1990 até o começo dos anos 2000.

O caso dos nomes dos países é mais evidente. Embora a maioria não tenha mudado, as mudanças que ocorreram ficaram muito marcantes, principalmente na comparação com o coreano falado do outro lado da Península, que, ao mesmo tempo que mantém o hanja, possui muitas derivações da língua inglesa, imitando sua pronúncia, e não a pronúncia oficial do país em questão.

Escolhi a Austrália porque é um caso marcante. A diferença entre 호주 (Hoju) e 오스트랄리아 (Osuturalia) é muito grande. Além disso, foi um dos primeiros nomes de países a ser modificado na Coreia socialista.

No final da década de 1980, o substantivo "오스트랄리아" já era utilizado, consolidando-se na década de 1990. Mas há um motivo específico para isso. "Hoju" (호주), que vem do hanja "Háo zhōu" (濠洲), também pode significar "chefe de família" (do hanja 戶主) ou "amante do licor". Em especial, "chefe de família" é um vocabulário significativo na Coreia, aparecendo até os dias atuais em publicações oficiais norte-coreanas sobre temas relacionados. Isso, evidentemente, causa certa confusão. Imagine "호주의 호주" (chefe de família da Austrália)? Isso ainda é possível no sul, embora seja pouco comum.

O nome da Austrália não foi o único entre os derivados do hanja a ser modificado — mas falarei detalhadamente em outras publicações —, mas cabe destacar que Estados Unidos (미국), Japão (일본), Reino Unido (영국) e China (중국) permanecem intactos. O motivo para isso, resumidamente, parece estar relacionado ao peso histórico desses quatro países na história da Coreia, à semelhança de alguns deles com a pronúncia original (no idioma do país em questão) e também a questões de praticidade.

Em suma, "Osuturalia" é a pronúncia, no idioma coreano, semelhante a "Australia" do inglês, idioma do país da Oceania.

domingo, 8 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 회교 e 이슬람교

A palavra “islamismo” era chamada de forma diferente da atual 이슬람교 (i sulam gyo) até a década de 1990 na República Popular Democrática da Coreia.

Utilizava-se 회교 (hoegyo), uma palavra sino-coreana derivada do chinês 回教 (Huí jiào).

O último registro acessível em materiais norte-coreanos que utilizam a palavra 회교 data de fevereiro de 1992: 이란회교혁명승리 13돐에 즈음하여 연회 (Banquete comemorativo pelo 13º aniversário da vitória da Revolução Islâmica do Irã), artigo publicado pelo jornal Minju Joson.

Por exemplo, quando o ex-presidente — que posteriormente se tornaria Líder Supremo — do Irã, Ali Khamenei, visitou a RPDC em maio de 1989, as publicações norte-coreanas o anunciaram como 이란회교공화국 대통령 (Iran Hoegyo Gonghwaguk Detongnyong) — Presidente da República Islâmica do Irã.

Mas por qual razão a palavra hoegyo deixou de ser utilizada, dando lugar a isulamgyo?

Não há uma explicação oficial para essa mudança, mas existem algumas possíveis justificativas.

Pode-se considerar a hipótese de uma “modernização” terminológica da língua, já que Islam (inglês) e إسلام (árabe) tornaram-se amplamente difundidos em escala mundial. Entretanto, considerando que a RPDC nem sempre adota automaticamente tendências linguísticas internacionais, outra explicação parece mais plausível.

Ela está relacionada à própria origem histórica da palavra chinesa 回教 (Huí jiào).

Na realidade, esse termo se refere originalmente ao povo Hui da China, um grupo étnico majoritariamente muçulmano. Com o tempo, porém, passou a ser utilizado de forma generalizada para designar o islamismo como um todo, tanto na China quanto em outros países da região, por meio de suas variantes linguísticas.

Por essa razão, 회교 mostrou-se uma designação pouco precisa para a religião islâmica. Já 이슬람교, por aproximar-se da pronúncia árabe original, apresenta maior precisão e também se mostra mais compatível com uma postura linguística mais recente adotada pela Coreia socialista — a qual explicarei com mais detalhes em outras publicações — de valorizar a pronúncia original de substantivos próprios (고유명사).

domingo, 4 de janeiro de 2026

Palavras que só existem (ou só são usadas) na RPDC

A língua coreana utilizada na República Popular Democrática da Coreia (RPDC) apresenta características próprias que a diferenciam claramente do coreano em uso na República da Coreia (RC). Essas diferenças não são apenas linguísticas, mas profundamente políticas, históricas e ideológicas. Um dos aspectos mais marcantes é a existência de palavras que só existem ou só são amplamente usadas na RPDC.

Esses termos revelam um projeto consciente de construção linguística, ligado à soberania cultural, à rejeição da influência estrangeira e à afirmação de uma identidade socialista própria.

1. Substituição de palavras de origem estrangeira

Após a libertação do Japão em 1945 e, sobretudo, com a consolidação do Estado socialista, o Norte passou a promover ativamente a eliminação de palavras de origem estrangeira. Esse processo incidiu principalmente sobre empréstimos do japonês herdados do período colonial, termos de origem chinesa excessivamente eruditos e vocabulário técnico ocidental introduzido por meio do inglês ou do russo.

O objetivo era criar palavras baseadas em raízes coreanas nativas, compreensíveis para todo o povo.

Exemplos incluem o uso de 손전화 para designar telefone celular, em vez do termo sul-coreano 핸드폰, a criação do termo 얼음보숭이 para substituir 아이스크림 e o emprego de 승강기 para elevador, em vez de 엘리베이터. Além disso, shampoo é designado como 머리비누, literalmente “sabão para a cabeça”, em vez do empréstimo do inglês 샴푸.

2. Vocabulário político exclusivo da RPDC

A RPDC desenvolveu um vocabulário político próprio, inseparável de sua experiência histórica e ideológica. Muitas dessas palavras não têm equivalente direto no Sul ou, quando existem, possuem sentidos diferentes.

O termo 주체 vai além de “sujeito” ou “autonomia” e designa a ideia central da revolução coreana, segundo a qual o povo é dono da revolução e da construção do Estado. 자력갱생, traduzido como autoconfiança, expressa a linha de desenvolvimento independente, tanto no plano econômico quanto político. 선군 designa a política de prioridade militar e está diretamente ligada à realidade específica da RPDC.

Essas palavras não são apenas conceitos abstratos, mas categorias vivas do discurso cotidiano, da educação e da imprensa.

3. Purificação da língua e acessibilidade popular

A política linguística da RPDC parte do princípio de que a língua deve servir às massas populares. Por isso, busca reduzir termos excessivamente eruditos, evitar estrangeirismos desnecessários e privilegiar palavras cujo significado seja facilmente compreensível.

Nesse contexto, utiliza-se o termo 문화주택 para designar habitações planejadas segundo padrões socialistas. 인민반 refere-se à unidade básica de organização comunitária, inexistente fora do sistema social da RPDC. A preferência por 로동자 em vez de 근로자 enfatiza o trabalhador enquanto classe social, e não apenas como força de trabalho abstrata.

4. O que isso diz sobre o país

A existência desse vocabulário específico mostra que, na RPDC, a língua é tratada como parte da soberania nacional, funciona como instrumento de educação ideológica, reflete a rejeição consciente da dependência cultural estrangeira e reforça a identidade coletiva e socialista.

Diferentemente de uma evolução linguística espontânea, muitas dessas palavras resultam de decisões políticas deliberadas. Isso não significa artificialidade vazia, mas um esforço de alinhar linguagem, pensamento e realidade social.

Conclusão

As palavras exclusivas da RPDC não são simples curiosidades linguísticas. Elas expressam um projeto de nação que busca existir com voz própria, inclusive no plano da linguagem. Compreender esse vocabulário é compreender, em parte, a forma como o Estado e o povo da RPDC veem a si mesmos e o mundo.

Qual a diferença entre tongji e tongmu?

De forma geral, tongji (동지) e tongmu (동무) significam “camarada” em português. No entanto, existem nuances importantes que diferenciam esses termos.

Antes de explicar essa diferença, é necessário compreender por que essas palavras são utilizadas na República Popular Democrática da Coreia.

Elas expressam a essência do coletivismo e do socialismo. Os honoríficos, profundamente enraizados na tradição feudal coreana, são substituídos por termos que colocam as pessoas em condição de igualdade, independentemente da posição ou do cargo que ocupam.

“Camarada”, nesse contexto, refere-se a alguém que constrói a revolução junto com o sujeito, alguém que está do mesmo lado da trincheira.

Embora ainda se utilize “선생” (senhor) como honorífico em alguns casos — principalmente ao se dirigir a estrangeiros —, honoríficos como “씨” são considerados resquícios feudais e, portanto, evitados.

Mas, afinal, qual é a diferença entre tongji e tongmu?

Para elevar um substantivo associado a uma posição social, patente ou título, acrescenta-se tongji. O uso de tongji em vez de tongmu confere uma elevação simbólica ao nome ou ao cargo, em comparação com o uso isolado do nome ou do substantivo (título). Em termos hierárquicos, tongji é considerado de posição superior a tongmu.

Tongmu é usado para se referir a amigos ou subordinados, seja pelo nome ou pelo cargo, enquanto tongji é empregado para nomes ou títulos de superiores hierárquicos ou de pessoas mais velhas.