sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ai, Orini e Sonyon

Para quem estuda o coreano, é comum encontrar as palavras 아이, 어린이 e 소년 traduzidas de maneira semelhante. No entanto, uma análise mais cuidadosa mostra que esses termos possuem campos semânticos distintos e refletem diferentes maneiras de compreender a infância e a juventude. Compreender essas diferenças ajuda não apenas na leitura de textos, mas também na interpretação de discursos, obras literárias e publicações.

Entre os três termos, 아이 é o mais básico e coloquial. Ele se refere simplesmente a uma criança, isto é, a uma pessoa que ainda não alcançou a maturidade. É uma palavra de origem nativa coreana, amplamente utilizada na fala cotidiana para designar filhos, crianças pequenas ou jovens em geral. Seu significado fundamental é descritivo e não carrega, por si só, uma carga ideológica ou institucional específica.

Além disso, 아이 frequentemente aparece em contextos familiares e afetivos. Quando pais falam de seus filhos como 우리 아이, a expressão enfatiza o vínculo emocional entre a criança e a família. Nesse uso, a palavra pode até ultrapassar limites estritamente etários, permanecendo aplicável a filhos já adultos quando o foco está na relação familiar e não na idade.

A palavra 어린이 ocupa uma posição diferente. Ela está fortemente associada ao movimento educacional e cultural liderado por Pang Jong Hwan no início do século XX. Seu objetivo era promover uma visão mais respeitosa da infância, apresentando as crianças como indivíduos dotados de dignidade própria. Essa origem histórica é importante para compreender por que 어린이 adquiriu um tom mais formal e institucional.

Entretanto, ao analisar textos da RPDC, percebe-se que 어린이 nem sempre ocupa o mesmo espaço central que possui no Sul. Embora continue sendo uma palavra perfeitamente compreensível e utilizada em determinados contextos, a linguagem norte-coreana frequentemente privilegia termos ligados à organização social, à educação coletiva e às categorias etárias definidas pelo sistema educacional e pelas organizações juvenis.

É nesse contexto que 소년 (소: pequeno 년: idade, anos) adquire uma relevância particular. Diferentemente de 아이, que apenas descreve uma criança, e de 어린이 (어린: jovem, imaturo, 이: pessoa) , que enfatiza a infância como categoria social, 소년 remete ao jovem em processo de formação. Trata-se de um vocábulo sino-coreano cuja história está ligada à ideia de juventude, desenvolvimento e preparação para responsabilidades futuras.

Na RPDC, o termo aparece com frequência em nomes de organizações, publicações, atividades culturais e instituições voltadas para a formação da nova geração. Expressões como 소년단 (União das Crianças) são especialmente importantes, pois associam a juventude ao processo de educação ideológica, disciplina coletiva e participação na construção da sociedade. 

Do ponto de vista semântico, 소년 descreve alguém que já ultrapassou a primeira infância e se encontra numa etapa intermediária entre a criança pequena e o jovem adulto. O foco não está na dependência característica da infância, mas no potencial de crescimento, aprendizado e desenvolvimento. Por essa razão, a palavra frequentemente evoca uma imagem mais ativa do que 아이.

Essa diferença torna-se evidente quando observamos os contextos em que cada termo aparece. Um bebê ou uma criança muito pequena será naturalmente chamado de 아이. Já um estudante envolvido em atividades escolares, esportivas ou organizacionais pode ser descrito como 소년, especialmente quando se deseja destacar sua condição de membro da nova geração em formação.

Em termos conceituais, pode-se dizer que 아이 enfatiza a condição natural da criança, 어린이 enfatiza a criança como pessoa merecedora de atenção e proteção, enquanto 소년 enfatiza o jovem como sujeito em processo de formação social. As três palavras podem referir-se a indivíduos de idades semelhantes, mas o ponto de vista adotado em cada caso é diferente.

Essa distinção é particularmente útil para leitores de materiais norte-coreanos. Em muitos textos da RPDC, o interesse principal não é descrever a infância como uma fase de fragilidade ou dependência, mas destacar o papel das novas gerações no desenvolvimento da sociedade. Nesses casos, palavras como 소년 frequentemente carregam nuances que vão além da simples referência à idade.

Assim, compreender a diferença entre 아이, 어린이 e 소년 permite perceber aspectos mais profundos da linguagem coreana. No contexto da RPDC, essa distinção torna-se ainda mais relevante, pois revela como diferentes termos podem refletir não apenas categorias etárias, mas também diferentes concepções sobre educação, crescimento e o lugar da juventude na sociedade.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 그루지야, 리뜨바, 라뜨비야, 에스또니야 e 몰도바

Os nomes de países em coreano (조선어) não sofrem influência apenas do hanja ou do inglês, mas também do russo.

É verdade que muitos nomes baseados no chinês deram lugar a formas inspiradas no inglês ou na pronúncia nativa do país em questão. No entanto, no caso de alguns países da antiga URSS, o padrão adotado foi o russo.

Antes de prosseguir, vale destacar que Rússia é “Rossiya” (로씨야), baseado no russo “Rossiya” (Россия), enquanto, na República da Coreia, utiliza-se “Rosia” (러시아), forma baseada no inglês “Russia”.

A seguir, os casos de Geórgia, Lituânia, Letônia, Estônia e Moldávia:

Geórgia — Kurujiya (그루지야)
A Geórgia é grafada como “Kurujiya”, com base no russo “Gruziya” (Грузия), em vez do georgiano “Sakartvelo” (საქართველო). Caso se baseasse na língua nativa, seria algo como “Sakharuthubelo” (사카르트벨로). Na República da Coreia, utiliza-se “Jojia” (조지아), baseado no inglês “Georgia”.

Lituânia — Rittuba (리뜨바)
A Lituânia é grafada como “Rittuba”, com base no russo “Litva” (Литва), em vez do lituano “Lietuva”. Caso se baseasse na língua nativa, seria algo como “Riethuba” (리에투바). Na República da Coreia, utiliza-se “Rithuania” (리투아니아), do inglês “Lithuania”.

Letônia — Rattubiya (라뜨비야)
A Letônia é grafada como “Rattubiya”, com base no russo “Latviya” (Латвия), em vez do letão “Latvija”, embora a escrita e a pronúncia das duas línguas sejam semelhantes. Uma forma mais próxima do letão seria “Rathubiya” (라뜨비야). Na República da Coreia, utiliza-se “Rathubia” (라트비아), baseada no inglês “Latvia”.

Estônia — Esuttoniya (에스또니야)
A Estônia é grafada como “Esuttoniya”, com base no russo “Estoniya” (Эстония), em vez do estoniano “Eesti”. Caso se baseasse na língua nativa, seriam possíveis formas como “Esuthi” (에스티) ou “Esutti” (에스띠); pelo padrão nortenho, provavelmente a segunda. Na República da Coreia, utiliza-se “Esuthonia” (에스토니아), derivada do inglês “Estonia”.

Moldávia — Moldoba (몰도바)
A Moldávia é grafada como “Moldoba”, possivelmente com base tanto no russo (Молдова) quanto no romeno (ou moldavo) “Moldova”, cujas pronúncias são muito semelhantes. Nesse caso, não é possível afirmar com certeza se a forma deriva diretamente do russo. Na República da Coreia, utiliza-se “Moldabia” (몰다비아), baseada no inglês “Moldavia”.

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 이태리 e 이딸리아


Trata-se de mais um caso de nome de país europeu baseado no hanja que foi modificado, em meados da década de 1960, para uma forma que imita a pronúncia nativa.

Inicialmente, utilizava-se “Itaeri”, derivado do hanja “Yītàilì” (伊太利). No entanto, já na década de 1960, adotou-se a forma atual “Ittalia” (이딸리아), baseada na pronúncia italiana de “Italia”. Por outro lado, na República da Coreia, utiliza-se “Ithalia” (이탈리아), também como uma tentativa de imitação da pronúncia nativa, já que, se fosse baseada no inglês “Italy”, a forma seria “Itholi” (이털리).

Esse caso serve como um bom exemplo das diferenças de interpretação da pronúncia de línguas estrangeiras entre o Norte e o Sul. “Ittalia” (이딸리아) apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965.


Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 서서 e 스위스

Trata-se de mais uma mudança no nome de um país europeu, ocorrida em meados da década de 1960, com o abandono de uma forma derivada do chinês em favor de um nome baseado na pronúncia inglesa.

Inicialmente, utilizava-se “Soso” (서서), derivado do hanja (瑞西), com influência da forma japonesa (Suwisu), em vez da chinesa (Ruì xī). No entanto, em meados da década de 1960, adotou-se “Suwisu” (스위스), que também é utilizado na República da Coreia e se baseia no inglês “Swiss” (e não “Switzerland”, que significa literalmente “terra dos suíços”). Caso se optasse por imitar a pronúncia alemã, a forma seria “Syubaicheu” (슈바이츠), baseada em “Schweiz”, pronunciado “Shvaits”. “Suwisu” apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965.

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 서반아 e 에스빠냐

Assim como no caso de Portugal, o nome para a Espanha na RPDC foi modificado, em meados da década de 1960, de um termo de origem chinesa para uma forma que imita a pronúncia nativa.

Inicialmente, utilizava-se “Sobana” (서반아), derivado do hanja “Xībānyá” (西班牙), mas o nome foi posteriormente alterado para “Esuppanya” (에스빠냐), com base na pronúncia espanhola de “España”. “Esuppanya” apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965. Na República da Coreia, utiliza-se “Supein” (스페인), forma baseada no inglês “Spain”.


 

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 포도아 e 뽀르뚜갈

Trata-se de um caso interessante de abandono de um nome baseado no hanja em favor de uma adaptação do nome na língua nativa, ocorrido em meados da década de 1960.

Inicialmente, utilizava-se “Podoa-a” (포도아), derivado do hanja “Pútáoyá” (葡萄牙). Posteriormente, porém, adotou-se “Pporuttugal” (뽀르뚜갈), com base no nome “Portugal” na língua portuguesa. Trata-se também de um exemplo do uso característico de consoantes duplas (쌍자음) na RPDC. Na República da Coreia, utiliza-se “Porutugal” (포르투갈), que, embora soe semelhante ao português, baseia-se na pronúncia inglesa. “Pporuttugal” foi utilizado pela primeira vez no Anuário Central de 1965.


 

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 불란서 e 프랑스

Esse é um caso interessante de mudança no nome de um país europeu, passando de uma forma derivada do hanja para outra baseada no idioma original, ocorrida já na década de 1960.

Inicialmente, utilizava-se 불란서 (Pullanso), derivado do hanja “Fú lán xī” (佛蘭西). No entanto, já em meados da década de 1960, a RPDC adotou “Purangsu” (프랑스), baseado no francês “France”, que também é utilizado na República da Coreia. “Purangsu” foi utilizado pela primeira vez no Anuário Central em 1965.