segunda-feira, 29 de junho de 2026

Romanização da Língua Coreana: Do Sistema McCune-Reischauer às Regras da RPDC

A escrita coreana ocupa um lugar singular entre os sistemas de escrita do mundo por sua organização lógica e pela capacidade de representar com precisão os sons da língua nacional. Entretanto, quando nomes de pessoas, localidades e instituições coreanas precisam ser registrados em caracteres latinos, torna-se necessário recorrer à romanização. Ao longo da história, diferentes sistemas foram desenvolvidos para esse propósito, refletindo concepções distintas sobre a melhor forma de representar o idioma coreano para leitores estrangeiros.

O sistema de romanização mais conhecido durante grande parte do século XX foi o McCune-Reischauer, elaborado em 1937 pelos estudiosos estadunidenses George M. McCune e Edwin O. Reischauer. Seu objetivo era criar um método capaz de aproximar a pronúncia coreana por meio do alfabeto latino, tornando-a compreensível para o público ocidental. Durante décadas, esse sistema foi amplamente empregado em estudos acadêmicos, mapas, enciclopédias e publicações internacionais sobre a Coreia.

George M. McCune possuía uma relação particularmente próxima com a Coreia. Filho de missionários presbiterianos estadunidenses, nasceu e cresceu em Pyongyang, onde aprendeu a falar coreano fluentemente desde a infância. Posteriormente tornou-se professor e respeitado pesquisador da história coreana na Universidade da Califórnia em Berkeley. Sua vivência na península contribuiu para que o sistema McCune-Reischauer buscasse reproduzir com fidelidade muitos aspectos da pronúncia coreana.

Seu colaborador, Edwin O. Reischauer, também nasceu no Leste Asiático, sendo filho de missionários estadunidenses estabelecidos em Tóquio. Tornou-se um dos maiores especialistas ocidentais em história japonesa, lecionou durante muitos anos na Universidade Harvard e exerceu posteriormente a função de embaixador dos Estados Unidos no Japão. Reischauer também manifestava profunda admiração pelo coreano, chegando a afirmar que o alfabeto coreano talvez fosse o sistema de escrita mais científico em uso geral no mundo.

Embora o sistema McCune-Reischauer representasse um importante avanço para sua época, sua elaboração tinha como principal público os leitores ocidentais. Assim, muitas de suas escolhas procuravam adaptar a representação dos sons coreanos às convenções de leitura mais familiares aos falantes de língua inglesa. Em consequência, diversos nomes coreanos passaram a ser internacionalmente conhecidos por grafias moldadas segundo hábitos de pronúncia do inglês, ainda que essas formas nem sempre refletissem da maneira mais direta a percepção fonética dos próprios coreanos.

Esse aspecto pode ser observado em diversos sobrenomes e nomes geográficos. O sobrenome 박 difundiu-se internacionalmente como Park, enquanto 리/이 tornou-se amplamente conhecido como Lee. O sistema também empregava sinais como ŏ e ŭ para indicar determinados sons que não possuem equivalentes diretos em inglês. Embora essas soluções fossem úteis para estudiosos estrangeiros, elas acabaram consolidando grafias que, muitas vezes, eram interpretadas segundo a pronúncia inglesa e não segundo a fonética própria da língua coreana.

Durante várias décadas, a RPDC utilizou uma variante baseada no sistema McCune-Reischauer, introduzindo pequenas adaptações compatíveis com suas necessidades de padronização. A experiência acumulada nesse período permitiu desenvolver uma compreensão mais ampla das vantagens e limitações desse método, servindo posteriormente como base para a elaboração de um sistema nacional de romanização.

Em 1992, a Academia de Ciências Sociais da RPDC adotou oficialmente as Regras de Transcrição em Alfabeto Latino da Língua Coreana. Esse sistema recebeu posteriormente aperfeiçoamentos em 2002 e 2012, preservando os princípios fundamentais definidos em sua criação. Entre eles destacam-se a busca pela representação mais próxima possível da pronúncia da língua coreana, a simplificação de determinadas variações para aumentar a praticidade do sistema, o respeito à tradição histórica da romanização e a manutenção de regras estáveis ao longo do tempo.

Segundo o próprio documento oficial da RPDC, um dos objetivos da romanização é utilizar letras latinas que representem da forma mais fiel possível os sons da língua coreana, levando plenamente em consideração suas características fonéticas. O documento também observa que as primeiras tentativas de romanização foram realizadas por estrangeiros e naturalmente refletiam sua percepção dos sons do coreano. Por essa razão, o sistema nacional procura aproximar a transcrição da realidade fonética do idioma, preservando ao mesmo tempo a continuidade histórica das formas já difundidas internacionalmente.

Enquanto a RPDC desenvolveu um sistema próprio de romanização, a República da Coreia adotou oficialmente, em 2000, a chamada Romanização Revisada da Coreia. O novo método eliminou os sinais diacríticos presentes no McCune-Reischauer com o objetivo de facilitar sua utilização em computadores, bancos de dados e na internet. Essa mudança também produziu diversas alterações na grafia tradicionalmente conhecida de inúmeros nomes coreanos.

As diferenças entre os sistemas tornam-se evidentes em exemplos bastante conhecidos. O nome histórico da Coreia, 조선, é romanizado como Joson na RPDC e Joseon na RC. O sobrenome 리 aparece como Ri/이 no Norte, enquanto no Sul predominam Lee e, em alguns casos, Yi. O sobrenome 박 é escrito Pak na romanização norte-coreana, mas Park continua sendo a forma mais difundida na tradição sul-coreana e internacional.

Outros exemplos ilustram claramente essas diferenças. A montanha 금강산 é romanizada como Kumgangsan na RPDC e Geumgangsan na RC. A cidade de 개성 aparece como Kaesong no Norte e Gaeseong no Sul. A cidade 청진 é Chongjin na romanização norte-coreana e Cheongjin na sul-coreana. A cidade 함흥 torna-se Hamhung no sistema da RPDC e Hamheung na Romanização Revisada. Até mesmo nomes amplamente conhecidos apresentam diferenças, como Phanmunjom e Panmunjeom para 판문점.

Em alguns casos, determinadas grafias permaneceram praticamente inalteradas por força do uso internacional consolidado. A capital da RPDC continua amplamente conhecida como Pyongyang, em ambos os lados da Península, embora eventualmente apareça Phyongyang ou Pyeongyang. Por outro lado, Seoul é utilizado também no norte, embora, segundo suas regras fosse "Soul". Isso demonstra que a romanização não depende apenas de critérios fonéticos, mas também considera a tradição construída ao longo de décadas de utilização em mapas, documentos e publicações internacionais.

As diferenças entre os sistemas de romanização não significam que haja idiomas distintos na península coreana, ainda que existam variações consideráveis. O que muda é o conjunto de critérios utilizados para representar essa escrita em caracteres latinos. Enquanto alguns sistemas foram concebidos principalmente para facilitar a leitura por estrangeiros, a romanização oficial da RPDC procura partir das próprias características fonéticas da língua coreana, preservando de forma mais direta sua identidade linguística.

A evolução da romanização da língua coreana acompanha importantes processos históricos vividos pela nação. Desde o sistema McCune-Reischauer até o desenvolvimento das regras nacionais adotadas pela RPDC e a posterior Romanização Revisada implementada na RC, cada método reflete diferentes prioridades e concepções linguísticas. Mais do que simples diferenças de grafia, esses sistemas revelam distintas formas de compreender como a língua coreana deve ser apresentada ao mundo, evidenciando a importância de preservar sua pronúncia, sua tradição e sua identidade nacional.

Lenan Menezes da Cunha 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Ai, Orini e Sonyon

Para quem estuda o coreano, é comum encontrar as palavras 아이, 어린이 e 소년 traduzidas de maneira semelhante. No entanto, uma análise mais cuidadosa mostra que esses termos possuem campos semânticos distintos e refletem diferentes maneiras de compreender a infância e a juventude. Compreender essas diferenças ajuda não apenas na leitura de textos, mas também na interpretação de discursos, obras literárias e publicações.

Entre os três termos, 아이 é o mais básico e coloquial. Ele se refere simplesmente a uma criança, isto é, a uma pessoa que ainda não alcançou a maturidade. É uma palavra de origem nativa coreana, amplamente utilizada na fala cotidiana para designar filhos, crianças pequenas ou jovens em geral. Seu significado fundamental é descritivo e não carrega, por si só, uma carga ideológica ou institucional específica.

Além disso, 아이 frequentemente aparece em contextos familiares e afetivos. Quando pais falam de seus filhos como 우리 아이, a expressão enfatiza o vínculo emocional entre a criança e a família. Nesse uso, a palavra pode até ultrapassar limites estritamente etários, permanecendo aplicável a filhos já adultos quando o foco está na relação familiar e não na idade.

A palavra 어린이 ocupa uma posição diferente. Ela está fortemente associada ao movimento educacional e cultural liderado por Pang Jong Hwan no início do século XX. Seu objetivo era promover uma visão mais respeitosa da infância, apresentando as crianças como indivíduos dotados de dignidade própria. Essa origem histórica é importante para compreender por que 어린이 adquiriu um tom mais formal e institucional.

Entretanto, ao analisar textos da RPDC, percebe-se que 어린이 nem sempre ocupa o mesmo espaço central que possui no Sul. Embora continue sendo uma palavra perfeitamente compreensível e utilizada em determinados contextos, a linguagem norte-coreana frequentemente privilegia termos ligados à organização social, à educação coletiva e às categorias etárias definidas pelo sistema educacional e pelas organizações juvenis.

É nesse contexto que 소년 (소: pequeno 년: idade, anos) adquire uma relevância particular. Diferentemente de 아이, que apenas descreve uma criança, e de 어린이 (어린: jovem, imaturo, 이: pessoa) , que enfatiza a infância como categoria social, 소년 remete ao jovem em processo de formação. Trata-se de um vocábulo sino-coreano cuja história está ligada à ideia de juventude, desenvolvimento e preparação para responsabilidades futuras.

Na RPDC, o termo aparece com frequência em nomes de organizações, publicações, atividades culturais e instituições voltadas para a formação da nova geração. Expressões como 소년단 (União das Crianças) são especialmente importantes, pois associam a juventude ao processo de educação ideológica, disciplina coletiva e participação na construção da sociedade. 

Do ponto de vista semântico, 소년 descreve alguém que já ultrapassou a primeira infância e se encontra numa etapa intermediária entre a criança pequena e o jovem adulto. O foco não está na dependência característica da infância, mas no potencial de crescimento, aprendizado e desenvolvimento. Por essa razão, a palavra frequentemente evoca uma imagem mais ativa do que 아이.

Essa diferença torna-se evidente quando observamos os contextos em que cada termo aparece. Um bebê ou uma criança muito pequena será naturalmente chamado de 아이. Já um estudante envolvido em atividades escolares, esportivas ou organizacionais pode ser descrito como 소년, especialmente quando se deseja destacar sua condição de membro da nova geração em formação.

Em termos conceituais, pode-se dizer que 아이 enfatiza a condição natural da criança, 어린이 enfatiza a criança como pessoa merecedora de atenção e proteção, enquanto 소년 enfatiza o jovem como sujeito em processo de formação social. As três palavras podem referir-se a indivíduos de idades semelhantes, mas o ponto de vista adotado em cada caso é diferente.

Essa distinção é particularmente útil para leitores de materiais norte-coreanos. Em muitos textos da RPDC, o interesse principal não é descrever a infância como uma fase de fragilidade ou dependência, mas destacar o papel das novas gerações no desenvolvimento da sociedade. Nesses casos, palavras como 소년 frequentemente carregam nuances que vão além da simples referência à idade.

Assim, compreender a diferença entre 아이, 어린이 e 소년 permite perceber aspectos mais profundos da linguagem coreana. No contexto da RPDC, essa distinção torna-se ainda mais relevante, pois revela como diferentes termos podem refletir não apenas categorias etárias, mas também diferentes concepções sobre educação, crescimento e o lugar da juventude na sociedade.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 그루지야, 리뜨바, 라뜨비야, 에스또니야 e 몰도바

Os nomes de países em coreano (조선어) não sofrem influência apenas do hanja ou do inglês, mas também do russo.

É verdade que muitos nomes baseados no chinês deram lugar a formas inspiradas no inglês ou na pronúncia nativa do país em questão. No entanto, no caso de alguns países da antiga URSS, o padrão adotado foi o russo.

Antes de prosseguir, vale destacar que Rússia é “Rossiya” (로씨야), baseado no russo “Rossiya” (Россия), enquanto, na República da Coreia, utiliza-se “Rosia” (러시아), forma baseada no inglês “Russia”.

A seguir, os casos de Geórgia, Lituânia, Letônia, Estônia e Moldávia:

Geórgia — Kurujiya (그루지야)
A Geórgia é grafada como “Kurujiya”, com base no russo “Gruziya” (Грузия), em vez do georgiano “Sakartvelo” (საქართველო). Caso se baseasse na língua nativa, seria algo como “Sakharuthubelo” (사카르트벨로). Na República da Coreia, utiliza-se “Jojia” (조지아), baseado no inglês “Georgia”.

Lituânia — Rittuba (리뜨바)
A Lituânia é grafada como “Rittuba”, com base no russo “Litva” (Литва), em vez do lituano “Lietuva”. Caso se baseasse na língua nativa, seria algo como “Riethuba” (리에투바). Na República da Coreia, utiliza-se “Rithuania” (리투아니아), do inglês “Lithuania”.

Letônia — Rattubiya (라뜨비야)
A Letônia é grafada como “Rattubiya”, com base no russo “Latviya” (Латвия), em vez do letão “Latvija”, embora a escrita e a pronúncia das duas línguas sejam semelhantes. Uma forma mais próxima do letão seria “Rathubiya” (라뜨비야). Na República da Coreia, utiliza-se “Rathubia” (라트비아), baseada no inglês “Latvia”.

Estônia — Esuttoniya (에스또니야)
A Estônia é grafada como “Esuttoniya”, com base no russo “Estoniya” (Эстония), em vez do estoniano “Eesti”. Caso se baseasse na língua nativa, seriam possíveis formas como “Esuthi” (에스티) ou “Esutti” (에스띠); pelo padrão nortenho, provavelmente a segunda. Na República da Coreia, utiliza-se “Esuthonia” (에스토니아), derivada do inglês “Estonia”.

Moldávia — Moldoba (몰도바)
A Moldávia é grafada como “Moldoba”, possivelmente com base tanto no russo (Молдова) quanto no romeno (ou moldavo) “Moldova”, cujas pronúncias são muito semelhantes. Nesse caso, não é possível afirmar com certeza se a forma deriva diretamente do russo. Na República da Coreia, utiliza-se “Moldabia” (몰다비아), baseada no inglês “Moldavia”.

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 이태리 e 이딸리아


Trata-se de mais um caso de nome de país europeu baseado no hanja que foi modificado, em meados da década de 1960, para uma forma que imita a pronúncia nativa.

Inicialmente, utilizava-se “Itaeri”, derivado do hanja “Yītàilì” (伊太利). No entanto, já na década de 1960, adotou-se a forma atual “Ittalia” (이딸리아), baseada na pronúncia italiana de “Italia”. Por outro lado, na República da Coreia, utiliza-se “Ithalia” (이탈리아), também como uma tentativa de imitação da pronúncia nativa, já que, se fosse baseada no inglês “Italy”, a forma seria “Itholi” (이털리).

Esse caso serve como um bom exemplo das diferenças de interpretação da pronúncia de línguas estrangeiras entre o Norte e o Sul. “Ittalia” (이딸리아) apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965.


Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 서서 e 스위스

Trata-se de mais uma mudança no nome de um país europeu, ocorrida em meados da década de 1960, com o abandono de uma forma derivada do chinês em favor de um nome baseado na pronúncia inglesa.

Inicialmente, utilizava-se “Soso” (서서), derivado do hanja (瑞西), com influência da forma japonesa (Suwisu), em vez da chinesa (Ruì xī). No entanto, em meados da década de 1960, adotou-se “Suwisu” (스위스), que também é utilizado na República da Coreia e se baseia no inglês “Swiss” (e não “Switzerland”, que significa literalmente “terra dos suíços”). Caso se optasse por imitar a pronúncia alemã, a forma seria “Syubaicheu” (슈바이츠), baseada em “Schweiz”, pronunciado “Shvaits”. “Suwisu” apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965.

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 서반아 e 에스빠냐

Assim como no caso de Portugal, o nome para a Espanha na RPDC foi modificado, em meados da década de 1960, de um termo de origem chinesa para uma forma que imita a pronúncia nativa.

Inicialmente, utilizava-se “Sobana” (서반아), derivado do hanja “Xībānyá” (西班牙), mas o nome foi posteriormente alterado para “Esuppanya” (에스빠냐), com base na pronúncia espanhola de “España”. “Esuppanya” apareceu pela primeira vez no Anuário Central na edição de 1965. Na República da Coreia, utiliza-se “Supein” (스페인), forma baseada no inglês “Spain”.


 

Vocabulário da RPDC: Ontem e Hoje — 포도아 e 뽀르뚜갈

Trata-se de um caso interessante de abandono de um nome baseado no hanja em favor de uma adaptação do nome na língua nativa, ocorrido em meados da década de 1960.

Inicialmente, utilizava-se “Podoa-a” (포도아), derivado do hanja “Pútáoyá” (葡萄牙). Posteriormente, porém, adotou-se “Pporuttugal” (뽀르뚜갈), com base no nome “Portugal” na língua portuguesa. Trata-se também de um exemplo do uso característico de consoantes duplas (쌍자음) na RPDC. Na República da Coreia, utiliza-se “Porutugal” (포르투갈), que, embora soe semelhante ao português, baseia-se na pronúncia inglesa. “Pporuttugal” foi utilizado pela primeira vez no Anuário Central de 1965.